a Unidade de Todas as Coisas

Notícias de um domingo sem carnaval

Jaqueline Matielo, 23, estudava Educação Física. Todos os dias, ao almoçar no Restaurante Universitário da UEL, eu presenciava a mesma cena. Ela chegava com sua bike, amarrava-a em algum canto e punha-se a esperar pela senha da vez com os amigos.

Tinha uma expressão meio sisuda, séria mesmo. Até então, tudo o que sabia dela. Não sabia onde morava, em que ano estava, o que fazia da vida. Não tinha idéia nem mesmo do seu nome e não tinha curiosidade em saber pois era algo que se repetia com diversas pessoas. Como a rotina nos coloca nessas situações, vez ou outra Jaqueline passava ao meu lado – por mero acaso. Nunca me disse oi, olá, ou me dirigira um bom-dia ou sequer o olhar. Pudera, jamais nos conhecemos até aquele episódio.

Na média, pessoas desconhecidas que se vêem todo dia desenvolvem o hábito de se ignorar – o que é perfeitamente normal. Pense num mundo onde, a cada passo, você fosse cumprimentar, interagir e saber coisas de todos os que sempre encontra por um motivo qualquer. Assim, creio que existe uma percepção mínima com relação aos que estão em volta e, ante à falta absoluta de motivos, interesses e afinidades, sendo o fator de encontro apenas o local determinado onde pretendem algo específico, fica então nisso mesmo e cada um segue para o seu canto. Pode acontecer num caminho, numa rua, numa padaria, num supermercado, numa linha de ônibus em horários comuns ou até mesmo dentro do próprio emprego. Com um mínimo de perspicácia, fica impossível ignorar a variedade de vidas em volta simplesmente porque jamais fariam parte da nossa vida mais diretamente. Para sanar a inquietude, minha solução é sempre observar o mundo à exaustão dos meus olhos.

Jaqueline estava, junto com algumas dezenas de pessoas, no rol daquelas que, por ver todo dia, às vezes me fazia curioso de me aproximar mais. É quase impossível ver todo dia alguém no bar, na faculdade, na Universidade, no ônibus, e não reconhecer coisas elementares: aquela pessoa existe, ela tem uma vida como a minha, estamos no mesmo espaço físico, eu a vejo. São mundos que se cruzam sem se cruzar.

No Carnaval, Cachoeira do Chicão em Faxinal. Sábado, no acampamento, reconheci Jaqueline de pronto. Não me pronunciei: afinal, continuávamos na mesma. Apenas fomos acampar com amigos – ela os dela, eu os meus - e somos desconhecidos um do outro.

Quando chegamos, o calor era de matar. Em direção ao rio que formava a Cachoeira Chicão 1, encontrei no caminho um isopor de latinha. Reclamei comigo que “esse povo só sabe jogar lixo na natureza”, catei o treco da beira do rio e joguei dentro do carro. Instantes depois, uma moça interpelou-nos:

-Alguém viu aí um porta-latinhas?

Peguei o porta-latas no carro e entreguei. Ela agradeceu e seguimos como sempre: para mim, permanecia uma íntima desconhecida, de quem não sabia nem mesmo o nome. Alguém que talvez eu nunca me aproximasse por todos os motivos que já expus no segundo parágrafo. A cachoeira? Só mais um acaso desses.

O que se seguiu é o desfecho prematuro de uma história a qual jamais imaginaria que fosse contar - e que infelizmente contei no jornal.

Nunca mais verei Jaqueline e sua bike no RU da UEL. Nem Flávio. Nem Renata.


Aluna da UEL morre em acidente na cachoeira

Às duas da tarde do domingo de Carnaval, um grupo de 15 jovens londrinenses parecia desnorteado: no acampamento selvagem às margens do rio São Pedro, em Faxinal, a 87 quilômetros de Londrina, a estudante de Educação Física Jaqueline Matielo, 23, acabara de despencar da Cachoeira do Chicão 2, um paredão de pedras de 60 metros de altura, de onde dificilmente salvaria-se com vida.

“A Jaqueline caiu, a Jaqueline caiu”, cortavam os gritos na região do acampamento. Um a um, os estudantes tomavam ciência da tragédia e levavam as mãos à cabeça, em sinal de visível desespero. “Não consegui pegar a mão dela e ela escorregou”, gritava aos prantos amiga de Jaqueline, Renata. O outro amigo, Flávio, aparentava saber a verdade, mas insistia com Renata que tudo estava bem. Jamais esteve.

Jaqueline estava na Cachoreira do Chicão 2, uma das 45 belas quedas naturais da região que atraem londrinenses todos os fins de semana. Não seria diferente no Carnaval, quando bandos de jovens buscam a tranqüilidade do campo para fugir do agito carnavalesco. Uma parte do grupo, a maioria de estudantes, havia chegado à região da Cachoeira do Chicão 1 na sexta-feira. A outra parte, no sábado.

Recanto

A cachoeira do Chicão 2 é um recanto distante cerca de 1,5 quilômetro da pequena estrada que liga Faxinal a sua zona rural. É procurada por aventureiros que, diante das facilidades de acesso à Cachoeira Chicão 1, preferem aventurar-se um pouco mais para visualizar o paredão de pedras da Chicão 2. É um dos pontos preferidos para a prática esportiva de rapel.

Pela manhã do domingo, Jaqueline encontrou um casal que voltava do caminho quando disparou em tom de brincadeira: “Desistiram, não estão com coragem?” e seguiu a trilha. Já perto das 14h, os quatro amigos e o irmão com quem estava insistiram para voltar ao acampamento. Manifestou que não queria – posto que o lugar era agradável demais – mas aceitou. Apenas pediu que esperassem para lavar o pé. Em um instante, escorregou na beirada e foi sugada por um canal de pedra em que o rio se afunila para formar o paredão de 60m de queda. A amiga Renata tentou segurá-la, mas foi inevitável. Os que estavam na frente não acreditaram quando Renata correu e contou que Jaqueline acabara de cair.

Desespero

O que se seguiu dali em diante foi puro desespero. No meio do mato, os jovens corriam pedindo ajuda até a volta ao camping. Nenhum dos 10 celulares disponíveis funcionavam na zona rural de Faxinal. Dada a notícia, um dos integrantes da turma, Flávio, dirigiu-se ao acampamento de um outro grupo distante uns 100 metros.

De carro, levaram-no em alta velocidade até ao Hospital Municipal de Faxinal na cidade, distante três quilômetros do acampamento. Para surpresa de todos, não havia nenhum médico no momento, apenas enfermeiras de plantão. Até aquele instante, ainda não sabiam tratar-se de uma operação de resgate de um corpo ou de salvamento de uma vida. Do hospital, as enfermeiras tentaram acionar a ambulância da Cidade – que fica na casa do motorista para que tudo seja mais rápido numa emergência. O celular do funcionário estava fora do ar.

O grupo, acompanhado de uma das funcionárias do posto, decidiu ir até a casa do motorista enquanto o Hospital contatava com a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. Foram informados que a unidade mais próxima de salvamento – em Apucarana – levaria até uma hora para chegar à Cachoeira Chicão 2. Pelo rádio, a Polícia Militar foi acionada, chegando praticamente junto com a ambulância no local – mas sem médicos. Apenas Flávio, o motorista da ambulância e dois policiais numa viatura.

“Eu sei que ela não está mais viva, diz logo para mim!”, berrou Renata, inconsolável, aos prantos e com a roupa cheia de lama, assim que Flávio desceu da ambulância da Prefeitura. Tudo o que o rapaz pôde fazer foi segurar a moça pelos braços. Até ali, passaram-se 40 minutos do acidente.

Sem ajuda médica, os dois policiais militares ativeram-se a arrebanhar voluntários para seguir a trilha: dez se prontificaram, entre moradores da região e amigos do acampamento. A distância de 1,5 quilômetro de trilha é um caminho complicado para quem pretende chegar a Chicão 2, que dirá para salvar alguém ou ser salvo. Quando os voluntários chegaram lá, um morador já havia resgatado Jaqueline das pedras. “O coração dela não bate mais”, avisou.

Com Jaqueline na maca venceram o caminho rapidamente, a despeito do mato na tortuosa trilha. Quando apontaram no alto do pequeno morro, moradores e amigos que aguardavam próximo à ambulância silenciaram em meio aos gritos de “sai, sai, sai” para abrirem caminho. O choque foi inevitável.

...

Ciente de que nunca mais veria a amiga, Renata apertou nas mãos a identidade de Jaqueline, que tinha ido buscar na barraca momentos antes. Caindo em si, chorou e teve uma crise, sendo agarrada por Flávio novamente. Na maca, em roupas de banho, Jaqueline estava inerte: o nariz sangrava e a face, roxa, indicava que nada mais havia a ser feito. Com ela na ambulância, o policial deu a fria ordem ao motorista: “Leve-a para o Hospital Municipal para constatação do óbito”.

Estudante de Educação Física, Jaqueline naturalmente era bastante ativa e saudável. Ela se formaria em Educação Física em março e fazia cursos de arbitragem. Costumava ir para a UEL de bicicleta e almoçava todos os dias no Restaurante Universitário – sempre acompanhada de seu veículo do qual não desgrudava. Um dia antes de tudo, ainda no sábado quando chegamos ao acampamento, Jaqueline havia se aproximado do nosso grupo perguntando sobre um objeto perdido que lhe pertencia. Quando entreguei, respondeu com um bonito sorriso e um sonoro obrigado.

Menos de hora depois de resgatado o corpo, todos os integrantes do acampamento de Jaqueline já haviam desmontado os equipamentos e ido embora. Para trás, uma brasa de fogueira que teimava em queimar, lixo em profusão e tristeza. Muita tristeza.

O corpo foi levado para Campo Grande, no Mato Grosso, de onde seguiu de avião até a cidade de Sorriso, residência da família. Jaqueline foi enterrada no fim da tarde de segunda-feira.

Marcelo Frazão
Jornal de Londrina

...adeus, jack...

Publicado em 03 de março de 2006 às 03:51 por frazao

Comentários

    • Como eu já disse pessoalmente, é uma história triste, Marcelo; muito triste. Mas foi preciso alguém para contá-la. E esse alguém foi você. Um abraço.
    • por Paulo Briguet
    • 03.Mar.2006 às 07:01 - Permalink - Reportar
    Paulo Briguet
  1. deni
    • Só posso dizer que senti muita agonia ao ler este post, pelo conteúdo e pela forma como foi apresentado. Um belo texto para uma história trágica, como o Briguet disse era preciso alguém para contá-la e você o fez com a competência e emoção necessárias.
    • por unsleeper.
    • 03.Mar.2006 às 17:10 - Permalink - Reportar
    unsleeper.
    • Bela matéria de uma triste história. Muito triste mesmo, amigo. A vida reserva cada coisa pra gente que só me faz que ela é um grande enigma mesmo. Abraço e se cuida!
    • por Fabrício Azambuja
    • 03.Mar.2006 às 21:07 - Permalink - Reportar
    Fabrício Azambuja
    • eis as leis paralelas e as teias dos acontecimentos. eis a nossa fragilidade e a conexão com a natureza, perdida há tanto. eis nossa ignorância diante dessa morte-vida tão impensada...
    • por anabanana
    • 04.Mar.2006 às 00:42 - Permalink - Reportar
    anabanana
  2. zero
    • por que quando a D. Morte captura alguém naturalmente, como vai acontecer com cada um de nós, uma espécie de imaterialidade e aura são envoltas no capturado?
      nada de sobrenatural existe na morte, pelo contrário.
      ela é o mais natural dos acontecimentos.
      este estranhamento e a aura me parecem medo forjado.
      o silêncio e a tristreza surgem então como a exteriorização do receio de ser o próximo da fila, ou do sentir o pesar pela impossibilidade de escapar.
      tragédia, não é ela, a D. Morte, mas sim a falta de mecanismos eficientes de salvamento ou nosso fingimento na tentativa de nos afastamos da naturalidade dela.

      Agora, a imortal linguagem, ela sim deve ser objeto de estranhamento, silêncio e respeito.
      Mesmo quando impressa por rotativas ou gerenciada por um sistema binário. Sentir e pensar os limites entre ficção, biografismo, jornalismo e fato são imperativos complidados e exigentes, mas necessários, como você sentiu na carne e na alma.
    • por gabi
    • 04.Mar.2006 às 16:50 - Permalink - Reportar
    gabi
    • olá.....não tenho palavras pra dizer o aperto q eu sinto agora. Estudei com a Jaque na Unopar (ela fez um tempo de mkt) e nos continuamos amigas ate então. O q mais doi é saber o qto ela amava a vida........Saudades da “Joãoqueline”
    • por Giselle Lima
    • 06.Mar.2006 às 13:50 - Permalink - Reportar
    Giselle Lima
    • minha irmã era da sala dela. em quatro anos de curso, sendo este o último, é a segunda aluna que morreu. o outro, fábio, também se foi na útima semana de férias antes do início do segundo ano. ela (minha irmã) realmente se emocionou após ler esta matéria...
    • por alemoura
    • 06.Mar.2006 às 22:56 - Permalink - Reportar
    alemoura
    • É muito difícil contar essa história sem derrapar na pieguice da emoção. E você conseguiu. Parabéns.
    • por Fischer
    • 14.Mar.2006 às 11:49 - Permalink - Reportar
    Fischer
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!