a Unidade de Todas as Coisas

Sobre medos e bolachas amanteigadas:

Medo, segundo o Aurélio, é “sentimento de viva inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário”.


No amor, a causa...de tal sentimento inquietante, quando embasada em perigos reais, é mais aceita perfeitamente como fato justificado. Por exemplo, imaginemos que uma mulher pela qual um homem qualquer se apaixona mostra-se, ao longo do desenvolvimento do relacionamento, que a presença de outros homens – e não só do homem que tem - a deixe por demais alterada em sua libido. Logo, ela sente um ímpeto incontrolável de estar com outros homens. E diante de outro homem, logo deseja outro.


Tal comportamento pode gerar no homem a que nos referimos hipoteticamente evidente medo de perda da amada para qualquer um. É deveras aceitável, tomando como pressuposto os antecedentes dela mesma.


Mas o que causa o medo frente a um perigo que não se faz real, que é apenas imaginário? Por que motivos temer, por que razões erguemo-nos barreiras interiores que façam o medo tornar a forma de muralha emocional no campo sentimental? Por que não se dar ao próprio imponderável, de forma que as coisas tomem sua própria forma, indiquem seu próprio caminho, dentro de uma perspectiva que pode ser altamente negativa e ruim, mas que do outro lado pode ser boa, duradoura, feliz, frutífera, prazeirosa?


Mas não. Para repelir tais entregas absolutas, há um medo aceitável diante das variadas circunstâncias. Não fôsse ele, atirarmo-nos-íamos a relacionamentos diversos, como suicidas, sem a exata noção do que cada um representa no nível da sua própria concretude. No amor, o medo tem o sentido de auto-preservação, mas é fato que seja um sentimento de mão-única. O fim, nestes casos, é “agradar” as partes envolvidas apenas no fator individual, tornando-se o medo um agente contínuo por trás da atmosfera real da relação.


Observemos o marido que, ao flagrar-se que a mulher todos os dias chega em casa fora do horário habitual, nada faz, nada pergunta, já que, fora esse comportamento, nada mais se alterou. Na mesma medida, ela, vendo que ele nada faz, segue no mesmo caminho – chegando em casa rotineiramente cada vez mais tarde, porém não falhando em qualquer outra atitude da vida cotidiana do casal. Com esse modus vivendi (expressão que vai além da tradução “modo de vida”), do ponto de vista mais restrito, os dois estão em uma relação “eficiente”, porém sob a ótica dos sentimentos superficiais, não no plano da plenitude da alma – que é o que qualquer pessoa de bom coração e princípios pressupõe como “meta” nessa vida, tomando como parte da ação o próprio espírito livre.


Neste caso, o marido encontra-se, a certos olhares, de maneira “feliz”: a esposa o ama e o provém de forma imutável, como sempre foi desde o tempo em que costumava chegar em casa no horário. E a esposa encontra-se igualmente “feliz” quanto à aparente relação, já que, por mais que seu amante a deseje, é seu marido quem a ama e quem lhe provém. E passam os dias - e o medo da verdade por trás do avançado diário da hora (para ele) e o medo da descoberta (para ela), tornam-se uma constante. Os dois seguem enganando-se e vivendo como se nada acontecesse. Mas no fundo de suas almas a verdade que se concreta a cada dia é a verdade que advém do mais puro medo, sem dúvida algo a ser repelido como método de vida. Mesmo assim, por pior que seja a relação - apenas aparentemente – apresenta-se de certa maneira cômoda para ambos.


Ou ainda, tomemos um exemplo hipotético em que pode o medo agir de maneira unilateral, com o intuito de garantir apenas o bem-estar – ressalte-se que de modo cômodo - de apenas uma das partes.


Tomemos um jovem casal, ambos virgens, que, ao se envolver da maneira mais íntima e verdadeira que possa existir, chega a um “limite”. Limite que na verdade não existe, bastando-se as partes se dar ao imponderável, ao “vamos ver o que acontece”. A relação caminha assustadoramente para passos firmes e cada vez mais largos e consistentes. Em uma das oportunidades, o jovem casal se vê às voltas com carícias das mais íntimas, que já suplantaram qualquer tipo de relação sexual que eventualmente possa ocorrer entre os dois. Depois de horas naquele regozijo louco, a certa altura, a jovem, inteiramente nua e no colo do rapaz, vaticina friamente:

- Não quero.


E ele pergunta, sem complexar-se:

-Mas por que?


E ela:

- Tenho medo.


Dentro da questão do medo no amor, há duas variáveis distintas a identificarmos: o estar-se com o espírito livre, que trata-se certamente de uma opção interior e íntima, que diz respeito somente a cada um; e a admissão do imprevisível e o imponderável. Estes, diferentes do espírito livre que tomo aqui como opção pessoal, são incontroláveis e se regem pelo acaso das coisas do mundo. Portanto, o modus vivendi mais completo, sem dúvida, é o que consegue unir a ação e manutenção do espírito livre às derrotas que nos são impostas pelo imprevisível e pelo acaso da vida - o que nos exige uma boa dose de coragem, sentimento e sobriedade frente aos obstáculos ocasionados pela própria opção pela imersão no que chamo aqui de espírito livre.


Funciona mais ou menos assim: é possível, de acordo com as posições individuais, eliminar a atuação do espírito livre, cuja presença e ação percebem-se opcionais para cada um. Permanece, então, a atuação do imprevisível incontrolável – este jamais podendo ser eliminado por humanos. Tais constatações – a de que é impossível a eliminação do que não se conhece (neste caso, o próprio imprevisível) - e a de que muito menos é possível o meu controle total sobre as coisas do mundo - também fazem parte da aceitação de que o imponderável é mais forte, maior e mais robusto do que qualquer espírito livre, sem dúvidas.


Mas não é porque uma situação não configura-se do jeito que almejo que vou me demover da certeza sobre a qual age meu espírito livre. Admitamos, humildes que, na vida, não temos nem de longe os controles de todas as coisas que nos cercam. Mas sem o espírito livre, e como sobre o imprevisível inexistem rédeas, a falsa noção de controle da situação que geralmente nos envolve – decorrente exatamente da inexistência deste espírito livre – traz-nos a uma espécie de “razão às cegas”. A esta altura, sentimo-nos dotados, inegável é, de certa razão. Porém, deste tipo de atuação também origina reação, quando de encontro a um espírito que se julga minimamente livre. Essa reação de um espírito livre também age de acordo com o imponderável, mas com vestes mais serenas do que com alguém não-munido de um espírito igualmente livre.


Medos imaginários no amor, que bloqueiam o envolvimento de maneira assaz completa, fazem parte dos lances da vida que se originam de causas geralmente concretas, apesar da carga psicológica ou emocional naturalmente envolvidas. Pessoas temem por receio de experiências anteriores que não se desejem ver repetidas. Ou se teme pelo simples fato de supôr que, como o norte dos acontecimentos é sempre o imprevisível e o imponderável, o desconhecido seja necessariamente e obrigatoriamente ruim. Oras, é óbvio que o mais fácil e direto é prever que a bolacha que cai da mesa sempre termine com a parte amanteigada virada para o chão. Mas o imponderável, o mesmo que faz com que a parte com manteiga pareça encontrar só chão como destino, faz também a bolacha cair virada para cima. Ou pode fazer, ainda, a bolacha sequer cair.


Outras horas, enquanto perdemos tempo supondo que a bolacha pode cair para cima ou para baixo com a preocupação de salvar a parte recheada de manteiga, ela pode simplesmente espatifar-se completamente, inutilizando-se. De modo que a única coisa que nos reste nessa vida é agir ciente da imprevisibilidade das coisas do mundo – mas sempre com o espírito igualmente livre para aceitá-lo, apesar da dor que possa provocar.


Bom, é basicamente isso o que queria dizer a quem se dispôs a ler.

Publicado em 05 de fevereiro de 2003 às 04:19 por frazao

Comentários

    • comentário analítico sincero:

      nunca li nada tão sublime tempos depois de eu mesmo ter escrito...

      Mas está aí. Tem bastante lógica e muito coração juntos em tudo o que está dito.
    • por frazao
    • 05.Fev.2003 às 04:25 - Permalink - Reportar
    frazao
    • putz...
      entrei aqui para ver o comentário na capa e tinha esquecido que era o meu próprio.

      Acontece, vai.
    • por frazao
    • 05.Fev.2003 às 04:29 - Permalink - Reportar
    frazao
    • Nossa, olhando os horários dos coments vi que esqueci tudo o que havia escrito em apenas 4m22s. Bati o FHC.
    • por frazao
    • 05.Fev.2003 às 04:32 - Permalink - Reportar
    frazao
  1. guilherme
    • Pareceu - me um daqueles artigos de Flávio Gikovate na Revista Cláudia, hehe.
      Mudando de assunto, Mala, você vem hoje ou amanhã?!
    • por ::ANAbanana::
    • 05.Fev.2003 às 11:16 - Permalink - Reportar
    ::ANAbanana::
    • concordo com a última parte, que fala de, co o espírito livre, devemos aceitar o que vier (seja bom ou ruim..), mas não é fácil obtê-lo... logo, o que devemos fazer quando desprovidos do espírito livre??? isso não quer dizer que eu vá olhar negativamente pra todas as coisas, não. (se tivesse uma receita seria bem mais fácil rs...)
    • por andréa
    • 05.Fev.2003 às 11:55 - Permalink - Reportar
    andréa
    • “O epicurismo desabusado, a indulgência sorridente, a resignação, a seriedade de espírito, o estoicismo, tudo isso que permite apreciar, minuto por minuto, como bom conhecedor,uma vida malograda”(Jean-Paul Sartre)
      Temos que tomar cuidado pra não nos tornarmos prisioneiros do espírito livre.
      Boa sorte na tua nova vida!!
    • por nathalie
    • 16.Fev.2003 às 17:41 - Permalink - Reportar
    nathalie
    • O medo não faz parte do amor. Quando se ama, não se faz nada que possa gerar medo na pessoa amada, pelo contrário, a entrega total gera confiança. Quem ama só quer fazer a felicidade do outro e vice-versa.Neste contexto não existe espaço para o medo.Amar é viver o dia a dia na certeza de ser amado.
    • por nicodemos
    • 16.Fev.2003 às 18:54 - Permalink - Reportar
    nicodemos
  2. putz
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